PESQUISAR 0800 605 1100

Estudo de caso: Musicoterapia nos cuidados paliativos prolongados em assistência domiciliar

0

INTRODUÇÃO

As mudanças demográficas, epidemiológicas, sociais e culturais,principalmente o rápido envelhecimento populacional, têm levadodiversos países, dentre eles o Brasil, a repensarem seu modelo de atenção assistencial à saúde(LABRÃO, 2007). De acordo com a RDC11/06, a Atenção Domiciliar pode ser definida como qualquer ação de promoção à saúde, prevenção, tratamento de doenças e reabilitação desenvolvidas em domicílio, podendo haver várias modalidades de atendimento (BRASIL, 2014).Nos contextos terapêuticos domiciliares, busca-se enfatizar a autonomia do paciente e pode-se esperar melhor adesão ao tratamento, além de permitir maior envolvimento e valorização dos familiares nos cuidados à saúde do paciente (LACERDA et al., 2006; SANTOS et al., 2011).

A Musicoterapia, campo científico e profissional que utiliza a música de forma terapêutica (BRUSCIA, 2016), aparece na Atenção Domiciliar como importante alternativa terapêutica para promoção de saúde, reabilitação e tratamento de patologias e enfermidades (INGELMO, 2012). A Musicoterapia pode servir como suporte ao tratamento convencional interdisciplinar aos pacientes idosos, com o intuito de recuperar a saúde do indivíduo, fortalecer os vínculos familiares e reduzir os déficits funcionais, intelectuais e emocionais associados às patologias mais prevalentes nessa população (LUZ, 2015).

Ainda são desconhecidos, na literatura científica, estudos que relatem padronização de procedimentos e avaliação de resultados em pacientes de Musicoterapia em atenção domiciliar em cuidados paliativos prolongados, porém pesquisas apontam melhora de respostas cognitivas logo após intervenção musicoterapêutica a idosos com demência (BRUER, 2007), diminuição dos quadros de agitação em idosos institucionalizados (RIDDER et al., 2013) e diminuição de dor em pacientes em cuidados paliativos (GUTGSELL, 2013). Além disso, auto expressão, realização e significado na vida insatisfatórios de uma pessoa idosa podem ser supridos por atividades como movimentar-se com música, compartilhar lembranças musicais, cantar e tocar instrumentos (TOMAINO, 2000 apud LUZ, 2015).

 

APRESENTAÇÃO DA INSTITUIÇÃO

A Captamed é uma empresa privada de atenção à saúde extra-hospitalar há mais de 15 anos no mercado, cuja matriz está localizada na cidade de Belo Horizonte (MG). A empresa realiza atendimento domiciliar, numa atuação interdisciplinar, em diferentes tipos de programas de atuação, segundo o perfil do paciente. A Internação Domiciliar atende pacientes complexos com incapacidade, temporária ou permanente e que necessitam de técnico de enfermagem e equipamentos específicos com tecnologia especializada; o Gerenciamento de Casos atende pacientes, parcial ou totalmente dependentes para atividades de vida diária, com condições crônicas; a Assistência Domiciliar atende pacientes com perda ou diminuição da capacidade funcional recente que possuem possibilidade de recuperação total ou parcial; o Cuidado Paliativo realiza o acompanhamento de pacientes em fase terminal, ou seja, para os quais a ciência não é capaz de deter o avanço da doença. Há outros programas e todos trabalham, sobretudo, a capacitação e envolvimento da família, cuidador e paciente, visando a promoção da saúde, a redução de hospitalizações e a prevenção de infecções e eventos adversos.

 

APRESENTAÇÃO DE CASO 

A Musicoterapia é uma forma ascendente de intervenção em cuidados paliativos a idosos (GUTGSELL, 2013), que foi utilizada para o tratamento da paciente LLC, de 95 anos, atendida no programa Gerenciamento de casos. Esta paciente, cujas principais queixas eram ansiedade, asma, dificuldade de marcha e luto recente por um dos filhos, teve 12 sessões semanais domiciliares com musicoterapeuta da Captamed. Foram feitos registros da sua história sonora e aplicadas avaliações nas sessões inicial e final por meio das escalas Individualized Music Therapy Assessment Profile (IMTAP) (BAXTER et al., 2007) e Sistema de Evaluación Musicoterapéutica para Personas con Alzheimer y otras Demencias (SEMPA) (INGELMO, 2012). Foram propostas atividades musicoterapêuticas específicas nas dimensões da vida avaliadas, observando os respectivos resultados atingidos:

  • Física (avaliações Motricidade Ampla, Fina e Oral pela IMTAP e Psicomotricidade pela SEMPA): atividades rítmicas e melódicas com canto e instrumentos (harpa, gaita, percussão) promoveram melhora na respiração e coordenação;
  •  Emocional (avaliação Habilidade Emocional pela IMTAP): paródias, improvisações e recriações de canções com foco na expressão de emoções e afetos trouxeram melhora do humor e relaxamento para dormir;
  •  Comunicacional (avaliação Motricidade Oral pela IMTAP): atividades com articulação de vogais e consoantes a ajudaram na expressão e leitura labial para compensar perda auditiva
  •  Social (avaliações Sócio emocionais pela SEMPA): atividades musicais feitas junto com familiares criaram encontros alegres e desfocados de doenças
  •  Cognitiva (avaliações Comunicação Receptiva/Percepção Auditiva pela IMTAP e Perceptivo-Cognitiva pela SEMPA): vídeos musicais ajudaram na atenção, distração da dor e alívio de temores;
  •  Musical (avaliação Musicalidade pela IMTAP): atividades com sinos diatônicos e canto de seu gosto pessoal estimularam prazer e musicalidade;
  •  Espiritual: cânticos religiosos da sua biografia musicalreforçaram sua conexão espiritual;
  •  Autoconsciência (avaliações Habilidade Emocional/Autoconsciência pela IMTAP): exercícios de meditação guiada lhe trouxeram paz e oportunidade de vivenciar gratidão.

 

DISCUSSÃO
A experiência de Musicoterapia propiciou à paciente entusiasmo, apoio emocional e espiritual. Observou-se na paciente receptividade, comprometimento com as atividades, compreensão do próprio processo, menos expectativas e ansiedade, disposição e mais expressividade em sorrisos e manifestações verbais. Equipe profissional observou efeitos benéficos na sua saúde global, destacando-se respiração e batimentos cardíacos mais equilibrados, melhora do humor e maior relaxamento.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

A relevância deste relato está na forma de intervenção, visto as ainda poucas evidências científicas da Musicoterapia na atenção domiciliar para pacientes frágeis. A Musicoterapia pode utilizar o som/música para relaxar, mitigar a dor, promover comunicação, expressão emocional e qualidade de vida, explorar e validar questões relacionadas à espiritualidade e ao fim da vida. Os cuidados paliativos requerem uma visão sistêmica e global. Em quadros crônicos prolongados, pequenas melhoras ou mesmo a manutenção sem piora de sintomas são significativas.Sugere-se que futuras pesquisas possam focar na validação e adaptação cultural de escalas musicoterapêuticas ainda não validadas no Brasil, e possam ampliar as bases de dados como a das avaliações apresentadas, visto que os resultados deste estudo de caso são um indício que investigações nesta área são relevantes e devem ser incentivadas.

 

REFERÊNCIAS

BAXTER, H.T.; BERGHOFER,J.A.; MACEWAN, L.; NELSON, J.; PETERS,K.; ROBERTS, P. The Individualized Music Therapy Assessment Profile: IMTAP. London, England: Jessica Kingsley Publishers, 2007.

BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção domiciliar no SUS: Resultados do laboratório de inovação em atenção domiciliar. Organização Pan-Americana da Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

BRUER, Robert A.; Spitznagel, Edward; Cloninger, Robert. The Temporal Limits of Cognitive Change from Music Therapy in Elderly Persons with Dementia or Dementia-Like Cognitive Impairment: A Randomized Controlled Trial. Journal of Music Therapy, v. 44, n. 4, p. 308-328, 2007.

BRUSCIA, Keneth E. Definindo Musicoterapia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Enelivros, 2016.

GUTGSELL, Kathy &others. Music Therapy Reduces Pain in Palliative Care Patients: A Randomized Controlled Trial Journal of Pain and Symptom Management. Journal of Pain and Symptom Management, v. 45, n. 5, p. 822-831, 2013.

INGELMO, Maria Elena González (Org.) Sistema de evaluación musicoterapéutica para personas con Alzheimer (SEMPA). Salamanca: Instituto de Mayores y Servicios Sociales (IMSERSO), 2012. NIPO: 686-12-011-0.

LACERDA, Maria Ribeiro; GIACOMOZZI, Clélia Mozara; OLINISKI, Samantha Reikdal; TRUPPEL, Thiago Christel. Atenção à Saúde no Domicílio: modalidades que fundamentam sua prática. Saúde e Sociedade, São Paulo, v.15, n.2, p.88-95, 2006.

LEBRÃO ML. O envelhecimento no Brasil: aspectos da transição demográfica e epidemiológica. Saúde Coletiva. 2007;4(17):135-40.

LUZ, Luiza Thomé. Musicoterapia na Qualidade de Vida em Idosos Institucionalizados. Porto Alegre, 2015. 110f. Dissertação (Mestrado em Gerontologia Biomédica). Programa de Pós-graduação em Gerontologia Biomédica, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

RIDDER, Hanne; STIGE, Brynjulf; QVALE, Liv & GOLD, Christian. Individual music therapy for agitation in dementia: an exploratory randomized controlled trial. Aging& Mental Health, v. 17, n. 6, p. 667-678, 2013.

SANTOS, Leticia Rosa; LEON, Casandra Genoveva Rosales Martins Ponce de; FUNGHETTO, Silvana Schwerz. Princípios éticos como norteadores no cuidado domiciliar. Ciência & Saúde Coletiva, 16(Supl. 1):855-863, 2011.

Artigo publicado no Brazilian Journal of health Review http://www.brjd.com.br/index.php/BJHR/article/view/2191/2266

 

Últimos Posts

CaptaMed © Todos os direitos reservados.